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quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Conto dos Dois Castelos

No tempo em que as árvores eram jovens, quando meti a espada às costas e lancei mãos à aventura, encontrei um rio bravo que corria diante de dois Castelos. Ali me sentei, na margem oposta, com os pés descansando nas águas gélidas, impossíveis de atravessar.
Abriu-se então a porta do Castelo de Ouro e dele saiu uma Princesa, a mais bela que o céu já testemunhou. Acenei-lhe e, num sorriso, respondeu-me da mesma forma. Pedi-lhe que me baixasse a ponte do seu Castelo para eu atravessar; ela ignorou-me, porém. E pôs-se a colher flores.
Sem que eu tivesse contudo reparado, o outro Castelo, de Prata, baixara a sua ponte. A sua Princesa atravessou-a com passos leves e pegou-me no braço. Virei-me e vi então que era bela; a sua beleza só superada pela Princesa do Castelo de Ouro.
"Vem.", disse-me.
"Se é este Castelo que queres, porque vais para esse?", gritou, da outra margem, a Princesa de Ouro.
Fiz-lhe sinal, pedi-lhe que baixasse a sua ponte.
"Não queres realmente este Castelo, só desejas atravessar o rio. Se eu te disser que não a baixo, então atravessarás essa ponte, não é verdade?"
Expliquei-lhe que não, mas não me quis ouvir. Então eu disse à Princesa de Prata que regressasse para o seu Castelo. Ela olhou-me e gemeu. Soltou-me o braço e, chorando, fez o que lhe ordenara. Lentamente, recolheu a sua ponte.

Hoje as árvores são já velhas e, no vento que lhes afaga os ramos, corre ainda esta história. Falam do homem que se tornou rocha fria junto ao rio, esperando para sempre uma ponte que nunca veio.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Era uma vez

Começo:

Veio um príncipe num cavalo hipotecado e a bela adormecida achou confortável o seu leito, mesmo que não sendo de seda; mesmo sendo de tecido grosseiro; não se ergueu, não lhe baixou a ponte levadiça.
O príncipe pensou em partir, procurar outro castelo: este conto de fadas era demasiado difícil. Pensou melhor: atravesso o fosso a nado.
Ninguém sabe que se passou depois.
Conta-se que conseguiu e levou a sua princesa. Mas há quem conte também que se esqueceu de tirar a armadura antes de mergulhar: e no lodo do teu fosso: afogou-se.


Dizes: Adivinhas-me.
Pergunto: O que esperavas se és o cálice pelo qual monto este corcel; se és a fonte de que todo o universo bebe e só por isso existe; se és a face que, uma vez olhada, revela a existência de um Ser Supremo?
Respondes: Existem mil caminhos, mil voltas redondas na linha uniforme da vida.
Rio. Triste, mas rio. Explico: Mas encontrado o caminho que mesmo nas trevas te faz sentir que todos os outros são inúteis, então só posso dizer o que te digo.

domingo, 18 de novembro de 2007

Conta-me uma história...

Foi o que ela me pediu. 'Conta', disse num murmúrio. Devo contar. Talvez um dragão. História que se preze tem um dragão e uma bruxa. E uma princesa e um cavaleiro. Não é difícil. Basta-me contar-lhe a história (Já existe;está lá; basta-me encontrá-la.).
Um cavaleiro perdido encontra uma princesa. Surge um dragão que bufa e os aparta. (Não para sempre, isso é um disparate.) Uma bruxa... O dragão na verdade é uma bruxa sem forma, irreal, resumo de todas as barreiras. Muda de forma. É uma amante para o cavaleiro, um outro cavaleiro para a princesa; para ambos é a distância física e imaterial. Como se mata um dragão assim?
O cavaleiro não sabe. (Já dormes? Vou prosseguir, a história precisa de um fim, mesmo que seja igual a todas as outras.) Percebe então que não o podem vencer. Procura a princesa e encontra-a numa ilha remota. 'Vim salvar-te', diz-lhe. E ela repete-lhe o inevitável, que 'Não se pode vencer aquela bruxa, nem sabemos o que é. Pode até ser esta ilha que pisamos; ou o Rei Gordo, que domina a Senhora de Negro.' 'Bem sei,' responde o cavaleiro, 'mas podemos combater. Podemos nunca desistir.'
(Ainda não dormes. Vi que estremeceste os olhos e a tua respiração sobressaltou-se. Sabes portanto do que falo.)
E viveram felizes para sempre (p'ró diabo com os disparates), combatendo uma bruxa que desconfiam ser sua filha.
(Não faz sentido, mas é real. Tu sabes. Abraças-me. Adormecemos.)