domingo, 13 de abril de 2008

Às vezes, sou um ser muito pequenino, muito fraco e complexado. Faço das tripas coração para meter um pé fora da cama, nessas alturas em que, transformado num ser patético e ridículo, desejaria não ter os olhos do mundo inteiro desdenhando da minha capacidade de me erguer. Quando isso sucede, eu encolho e cai-me o cabelo e murmuro nomes de doenças com voz débil, a ver se os olhos têm pena de mim e me deixam ficar na cama.
E se deixam, se por ventura consigo que me não julguem pela decisão de não me erguer, então esquecem-me ali e não surge nem uma mão a conduzir uma colher de sopa até aos meus lábios secos e quebradiços. Ninguém me alimenta e tenho de me disfarçar com forças que não tenho e erguer-me da cama e vir para a rua de sorriso nos lábios.

(e eu às vezes tantas vezes só queria ficar deitado como um moribundo a quem todos pagam respeitos mas sem sofrer sem mais sofrimento do que esse que me constringe a decidir ficar no leito e meu amor preciso que entendas que por vezes toda a minha força desmorona e me aceites assim tão forte como fraco nessas vezes por vezes tantas vezes mas nem sempre)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O Beijo

O nosso beijo foi ruidoso.
O primeiro sinal foi o casal da mesa ao lado. Voltou-se e mirou-nos com surpresa, como se a nossa ousadia fosse pura loucura. Logo a seguir, todos no café nos fitaram, irados. O velho que tragava o vinho ao balcão, por entre arrotos e umas asneiras, cuspiu para o chão em sinal de protesto.
Na rua, os transeuntes pararam, estupefactos, tomados de medo. Uma criança chorou e a mãe tapou-lhe os ouvidos, procurando a fonte de tamanho distúrbio. Dois carros bateram. Os condutores discutiram de quem era a culpa, mas a sua raiva era contra nós e não entre eles.
A TV ligou-se como que por magia e falavam comentadores e jornalistas. Praguejavam contra o mundo, atiravam culpas como ovos podres.
Os nossos lábios separaram-se num sorriso meigo e o mundo inteiro retomou o seu rumo: o velho pediu mais um copo; a criança deu a mão à mãe; os condutores trocaram contactos e seguradoras; alguém tirou o som à televisão. O mundo prosseguiu, mas o arrepio do nosso beijo ficou para sempre gravado na sua espinha.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O Enxoval das Bruxas

Chamavam-lhe "o enxoval das bruxas", a essas alturas em que chove apesar do sol radiante. Macário sempre se interrogara do porquê. Hoje, à porta da tasca, com um cigarro entre os dentes e um copo de vinho na mão, recordava-se da sua infância. Não se tratavam de reminiscências isoladas, mas de toda uma sensação que lhe vinha à memória e que estava certo de ser o que sentem as crianças.
'O enxoval das bruxas...', balbuciou.
E recordou, imiscuída nesse sentimento, a imaginação infantil que despertava com tais palavras: um desfile de bruxas dançando, segurando o véu negro da que seguia na frente, com um ramo de flores silvestres já murchas. Macário via agora essas imagens diante de si, tal e qual como quando tinha cinco, seis, sete anos...
Alguém dentro da taberna rosnou, chamando por ele, exigindo ser servido. A chuva interrompeu-se, as bruxas sumiram. Macário apagou o cigarro, verteu o resto do vinho goela abaixo e, com passadas de homem, regressou para trás do balcão.